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Era hora do almoço quando meu telefone tocou. Nunca mais verei uma pessoa muito importante para mim. Uma pessoa que fez de mim muito do que sou e que me ensinou muito do que sei. Mas ela teve uma bela e longa vida, sempre foi carinhosa, honesta, justa e em sua estada neste planeta espalhou estes princípios.
Eu estava no meio do centro de convenções onde acontece a CoP 15. Havia saido de uma sala de reuniões onde países se recusam a ceder suas posições para o bem comum. Há dois dias, o representante de Samoa, uma das pequenas ilhas do Pacífico, havia feito seu discurso de abertura. Ele falava da sobrevivência, não só do seu povo, mas de milhões de pessoas de diversos países. Apesar dos aplausos, poucos perceberam o que isso significa de verdade. Eu me incluo nesse grupo. Na correria das negociações, as vezes esquemos a razão de estarmos aqui.
Hoje eu percebi porque estou aqui. Obviamente fiquei chateado com a notícia, mas foi a mistura com o que estou vivendo que realmente me abalou. Enquanto tentava assimilar o que havia acabado de ouvir, pensava que atualmente milhares de pessoas passam pela mesma coisa, só que de uma maneira muito pior. Minha perda é parte de um ciclo que não podemos mudar. O ciclo da vida. Outras perdas, são parte de um ciclo que podemos evitar. As mudanças do clima.
Enquanto pensava que não iria mais poder ouvir repetidas histórias de minha infância, contar 100 vezes o nome do local para o qual eu viajaria no dia seguinte ou simplesmente aproveitar um abraço, pensei também nas pessoas que são privadas daqueles que amam por fenômenos climáticos. Pensei nas milhares de vezes em que li notícias do tipo “3 pessoas mortas em inundação” e não me dei conta do real significado daquilo. Senti um pouco de vergonha de mim mesmo. Neste momento, eu percebi o que uma perda realmente significa.
Pense em uma pessoa querida. Muita querida. Agora pense que você nunca mais poderá ver, ouvir, tocar, falar com esta pessoa porque ela morreu em uma inundação, tornado, seca, onda de calor… E que isso foi causado porque os governantes de alguns dos países mais ricos do mundo são incapazes de abrir mão de uma fração ínfima de seu dinheiro (evitar as mudanças do clima pode custar só 3% do PIB global). É isso o que acontece por aqui. Enquanto as pequenas ilhas afundam e milhões de pessoas dos países menos desenvolvidos choram por seus entes queridos, lamentando perdas irreparáveis, os negociadores dos países ricos assumem posturas ridículas como a tentativa de burlar as regras de contagem das emissões - para colocar uma meta bonita mas não precisar fazer nada de verdade; prometem quantias ridículas de recursos financeiros para os mais pobres e evitam a construção de um protocolo de verdade. O pior é que fazem isso sabendo que se o bicho pegar, poderão se esconder atrás de diques, muralhas, ar condicionado e supermercados.
Falta bondade nas pessoas que tem o poder de fazer a mudança. Enquanto estava triste, vi vários jovens com camisetas onde se lia “nosso futuro não é negociável”. Via pessoas de ONGs fazerem lobby nos negociadores. Vi grupos das pequenas ilhas travarem a negociação para discutir aquilo que realmente interessa. E vi os donos do poder se recusarem a colocar suas metas para o público. Há bondade, mas está nas mãos erradas.
Será que eles sabem o tamanho da responsabilidade que têm nas mãos? Será que entendem que suas decisões podem significar vida ou morte para milhares de pessoas? Será que tem noção do tamanho e da importância de uma única vida. Muito mais para quem fica do que para quem vai. Para quem fica com o coração apertado, os olhos molhados, as memórias e as saudades. Parece que não.
- Negociadores, não tem carvão, petróleo, madeira ou dólar que possa valer mais do que uma vida. Vocês tem a honra de poder mudar o futuro, de salvar milhares de vidas, de evitar milhões de lágrimas. Vocês tem nas mãos a balança da felicidade e da tristeza, da bondade e da maldade, da ganância e da compaixão. Lembrem-se da razão pela qual vocês estão aqui. Vocês vieram salvar o planeta e não representar os interesses de alguns privilegiados. Ouçam o clamor dos jovens, os gritos de socorro dos menos favorecidos e o apelo de milhões de pessoas que estão mobilizadas ao redor do mundo por um resultado de sucesso em Copenhague. A postura de alguns de vocês é suja, maldosa e desprezível. Não custará muito para seu país. Mas pode custar muito para a humanidade.
O céu está prestes a ganhar mais uma estrela. Adeus vó. Obrigado por tudo.
(Por favor não postem mensagens de pêsames. Foi uma bela vida e deve ser celebrada, não lamentada)
Postado por joao.talocchi em: GreenpeaceTags: aquecimento global, Clima, cop15, copenhague, Greenpeace, mudanças climáticas, mudanças do clima, vida







